Textos COm VIDa – Fui ao supermercado



Este será o primeiro de alguns textos que irei escrever sobre a minha experiência pessoal dentro de uma sociedade que se encontra a ultrapassar uma pandemia. Irei falar de como esta doença me afeta a mim, à minha liberdade e à liberdade de todos nós. Decidi intitular esta série de “Textos COm VIDa”.


Fui ao supermercado. Algo que seria simples se não estivéssemos a passar por uma pandemia. Nunca me senti tão nervosa por sair de casa ou por deslocar-me a um centro comercial. Levei o mínimo de objetos possíveis: sacos das compras, uma lista feita em papel para me descartar da mesma depois de cumprir a sua função, o meu telemóvel, a chave do carro, a chave de casa e o indispensável frasco de álcool em gel.


Desde que saio do carro sou constantemente observada e olhada de lado. Parece que a partir de agora vamos todos ser discriminados por simplesmente existirmos, talvez nos faça bem e nos ofereça alguma humildade. Será que o coronavírus vai acabar com a discriminação? Deixo esta pergunta no ar para os mais sonhadores.


Coloco-me na longa fila para entrar no supermercado, a distância de segurança é marcada pelos carrinhos das compras que se irão encher dentro de momentos. Passado cerca de 20 minutos (um tempo que considero bastante razoável considerando a situação), entro no supermercado e apercebo-me que para algumas pessoas pouco mudou no seu dia a dia. Os funcionários continuam com um sorriso na cara e dispostos a ajudar, a única diferença é que agora usam luvas cirúrgicas.


Estas pessoas que todos os dias se levantam e deixam aqueles que mais amam em casa para alimentar uma sociedade são heróis e demonstram que trabalhar é uma forma de ser livre, provavelmente não a primeira que escolheriam, mas a necessária para continuarem a sobreviver e ajudarem outros a fazer o mesmo.


Temos que tentar ser positivos em tempos de desespero. Um dos aspetos positivos desta situação é o facto de as pessoas respeitarem o trânsito de carrinhos nos corredores, já não existem choques de carrinhos, as pessoas respeitam o espaço e a circulação. Penso que existe uma maior colaboração entre todos, já não há aquela pessoa que sem sequer perguntar ou pedir licença empurra o carrinho pelo corredor adentro levando outras pessoas atrás. As pessoas param, olham-se e criam ali um acordo invisível de quem passará primeiro, sem pressas e sem insultos, porque na verdade queremos todos o mesmo: fazer as nossas compras o mais rápido possível sem nos tocarmos.



Agora vamos falar dos aspetos mais negativos ou assustadores desta situação. Tentaram-me assaltar. Se calhar isto é um pouco dramático, mas tentaram roubar-me os meus sacos das compras. Tinha deixado os meus sacos dentro do carrinho enquanto fui buscar mais alguns produtos e tal não foi o meu espanto quando volto ao meu carrinho e vejo uma família a pegar nalguns dos meus sacos. Espero que pelo menos a ideia deles tenha sido enchê-los de noção. Sim, noção, o ingrediente que está quase esgotado em todos os supermercados deste país. A solidariedade também está em grande escassez, mas tem vindo a ser reposta nos corredores de várias superfícies comerciais.



Apesar de tentar levar este assunto de uma forma leve e despreocupada, o medo dentro de cada um de nós é muito. Quando no corredor dos frescos, procuro por alguns iogurtes com uma data de validade grande, acidentalmente uma senhora de certa idade toca-me e rapidamente começa a suplicar que a desculpe e fica nitidamente emocionada. Fico em choque, mas tento acalmar a senhora dizendo que está tudo bem. Se calhar eu não entendi o perigo deste vírus, ou se calhar esta senhora está extremamente assustada por passar todos os seus dias em casa a ver notícias, ou se calhar ambas as hipóteses estão corretas.


Durante estas compras, vi o pai de um amigo meu. Inicialmente não entendi porque é que um senhor com máscara estava a olhar para mim e a expressar o que parecia um sorriso. Aproximei-me e reparei que era o pai do Gustavo, um amigo de infância. Quis abraçá-lo e ficar ali a pôr a conversa em dia, mas rapidamente apercebi-me que isto não era aceitável, ambos estávamos naquele supermercado para cumprir uma missão: comprar o essencial e sairmos para voltar a entrar em isolamento. Enviei beijinhos para o resto da família e desejei-lhes uma “boa quarentena”, por baixo da máscara ele pareceu retribuir-me a mesma mensagem.


Foi esta a minha aventura numa indesejada ida ao supermercado. Conclui que a liberdade normalmente é retratada como a possibilidade de sermos diferentes e sermos únicos, sairmos daquilo que é constituído como “normal” e estereotípico. Mas esta ida ao supermercado foi diferente, única, saiu dos parâmetros que considero normal e fugiu a todos os estereótipos (criando até alguns novos), porém nunca me senti tão pouco livre. Sair de casa já não significa liberdade, pelo contrário, começamos a criar a nossa própria liberdade dentro de quatro paredes e de certa forma isso é bastante bonito.


Uma casa deixou de ser um espaço onde dormimos ou ocasionalmente fazemos refeições, passou a ser a nossa praia, a nossa escola, o nosso local de trabalho, o cinema, o restaurante favorito, a pastelaria onde tomamos café todos os dias, o museu (simulação na ilustração abaixo), a sala de concertos, entre outros tantos espaços onde fomos e agora tentamos ser felizes.



Texto de Beatriz Cunha

Ilustração de Nuno Amaral

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