Textos COm VIDa - Como é que o bicho mexe 60 mil pessoas?



Este é o segundo texto COm VIDa e vou tentar levar isto por um caminho mais leve, vou evitar as palavras álcool, isolamento, máscaras e estado de emergência. Num espaço de um mês muito mudou no país. Aliás, muito mudou no mundo: a forma como as pessoas comunicam, se deslocam, trabalham e se entretêm. É neste último aspeto que me vou focar. Os teatros, os museus, os monumentos, os cinemas, os programas de televisão de entretenimento (na sua maioria), os concertos, os festivais e todo o tipo de instituições culturais foram encerrados ou cancelados em Portugal. Todas as formas de entretenimento que tínhamos foram substituídas por veículos de informação sobre o coronavírus, algo que apesar de bastante útil, é também bastante esgotante psicologicamente. A informação é importante para todos entendermos as medidas que devemos tomar para nos protegermos, mas até que ponto não será demais? Continuamos a poder recorrer às plataformas de streaming de música e filmes, o que nos dá algum descanso do bicho. As formas tradicionais de entretenimento e cultura adaptaram-se a esta situação: os teatros estão a disponibilizar peças online, os museus estão a colocar as suas coleções em formato digital, os cinemas estão a providenciar filmes de autor gratuitamente (dando-lhes uma audiência maior do que a habitual) e os festivais escolhem o recinto das redes sociais. Um fenómeno extremamente interessante que surgiu nas últimas semanas foram os diretos no Instagram (ou lives para os poliglotas), transmissões em direto de concertos, conversas, treinos, conselhos amorosos ou parvoíces. Esta ferramenta não é recente no Instagram, mas nas últimas semanas parece ter sido utilizada em força por todos os influencers ou figuras públicas com alguma visibilidade.

Quero destacar o que para mim é um dos maiores fenómenos desta revolução cultural e de entretenimento, os diretos do Bruno Nogueira intitulados “Como É Que O Bicho Mexe?”. Se andam a dormir na vossa quarentena, ou se simplesmente estão desligados das redes sociais são capazes de ainda não ter ouvido falar dos lives do Bruno Nogueira, mas digo-vos já que representam uma minoria da sociedade. Todos já ouvimos falar destes diretos, quer seja por estarmos viciados neles ou simplesmente porque um amigo nos recomendou. Ocorrem habitualmente todos os dias de semana pelas 23h com a companhia de um copo de vinho, normalmente branco. Considero estes diretos um fenómeno pela seguinte razão: no dia 14 de Fevereiro de 2020, o Bruno Nogueira levou o seu espetáculo “Depois do Medo” até ao Altice Arena, tendo esgotado a sala com 14 mil pessoas. Porém, há já mais de três semanas que Nogueira nos seus diretos de Instagram tem alcançado o número de habitualmente 60 mil visualizações, equivalente ao triplo da capacidade total do Altice Arena ou a um Estádio da Luz. Este número de visualizações não foi alcançado apenas numa noite, tem sido recorrente durante vários dias. Podemos dizer que o Bruno Nogueira anda a esgotar o Estádio da Luz todos os dias? Desculpem o meu entusiasmo, mas acho estes números muito parvos e quase irrealistas, não acredito neles. É certo que o Bruno conta com a companhia de colegas humoristas e figuras públicas. Eles próprios com bastantes seguidores nas redes sociais, como por exemplo: o Nuno Markl com o seu sempre expectante número de karaoke, o João Manzarra sempre pronto a ser “mal tratado” pelo Bruno, o Salvador Martinha (ou o Tom Sawyer dos tempos modernos), a Inês Aires Pereira e a Beatriz Gosta que oferecem a perspetiva feminina, entre outras celebridades que ocasionalmente aparecem. Também podemos considerar que estamos todos em casa e as nossas únicas opções de entretenimento seriam isto ou as notícias que nos deixam cada vez mais depressivos. Para não falar que obviamente para se ter assistido ao espetáculo do Bruno Nogueira, tínhamos de pagar um bilhete, enquanto neste caso apenas temos de ter um telemóvel, acesso à Internet e uma conta de Instagram. Apesar de que um copo de vinho também deveria ser obrigatório. No entanto, quero-me concentrar nos factos surpreendentes: o live começa às 23h, um horário “complicado” pelo menos aos olhos dos canais de televisão que ainda não têm a ousadia de arriscar num late night show como aqueles que vemos nos EUA. Destaco o esforço da RTP, em ter o 5 Para a Meia Noite que infelizmente agora passa apenas um dia por semana. Além disso, se têm observado alguns diretos de outras figuras públicas, conseguem constatar que os números do Bruno não são só surpreendentes no panorama nacional como internacional. Pagava para estar na sede do Instagram e ver os analistas a tentarem entender como é que um gajo em Portugal à meia noite está a fazer um live com 60 mil pessoas a assistir. Ainda não mencionei a minha parte favorita dos diretos: o final do Filipe Melo, ou como o Bruno Nogueira o intitulou, o novo Vitinho. O Filipe é um talentoso pianista que já trabalhou com alguns dos mais conceituados músicos portugueses: Carminho, Sérgio Godinho, Carlos do Carmo, António Zambujo, entre outros. Também é um dos membros do podcast Uma Néspera no Cu com o Bruno e o Markl (que vivamente recomendo ouvirem). Todas as noites para fechar o direto, o Filipe toca uma “pianada” que derrete corações, até o do próprio Bruno Nogueira que fica encantado a ouvir. Enquanto o Filipe toca parece que por momentos tudo está bem no mundo. Quero tentar encontrar uma lógica para explicar a imensidão de pessoas que veem estes diretos, mas não há forma de explicar, porque ao contrário do vírus não é científico, nem uma ciência precisa vai-me ajudar. É humano aquilo que acontece todas as noites no Instagram, uma plataforma que para mim cada vez menos tinha algo de humano. E termino com as palavras com que habitualmente o Bruno fecha os diretos: “Até amanhã! Isto vai correr bem.” Texto de Beatriz Cunha Ilustração de Joana Jorge

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