Textos COm VIDa – A pandemia do tempo-livre


Li algures que desde que haja uma morte, o saldo deste vírus nunca poderia ser positivo, mas relembro que podemos tentar tirar o máximo de aprendizagens de tudo aquilo pelo qual estamos a passar. É imperativo que utilizemos este tempo para pensar e entender aquilo que está menos bem no nosso mundo, nas nossas vidas e em nós próprios.

Agora talvez até tenhamos tempo para pensar na nossa posição enquanto cidadãos e nas nossas convicções políticas. Algo que o português tende a ignorar com regularidade, apesar de tirar sempre partido do direito da liberdade de expressão ou nalguns casos, o direito de “treinador de bancada”.

Em 2019, nas últimas eleições legislativas houve mais de 50% de abstenção. Este valor não me surpreendeu, mas, sem dúvida, entristeceu-me. Pensar que cerca de metade dos cidadãos inscritos não teve a paciência ou possibilidade de dirigir-se às urnas para dar a sua opinião é das maiores tristezas que este país já me deu. Principalmente porque sei que neste momento algumas destas pessoas estão em casa revoltadas e a gritar com decisões tomadas pelos deputados eleitos nessas mesmas eleições. São estes os tais treinadores de bancada.

Não quero tornar a política no tópico central deste texto, nem acho que o voto obrigatório seja solução para o desinteresse político dos portugueses. Penso que temos que nos lembrar que ela, a Dona Política, faz parte do nosso dia a dia. Estamos sempre em contacto com ela, por exemplo quando vamos comprar pão, quando estamos no médico, quando deixamos os miúdos na escola, entre outras situações. Ela está em todo o lado a todas as horas, não nos podemos só lembrar dela quando as coisas ficam mais “apertadas”.

É assustador pensar que alguns dos deputados eleitos acreditam na redução do investimento ou privatização do Sistema Nacional de Saúde, aquele SNS que está diariamente a tentar salvar vidas. Tudo é colocado em perspetiva em tempos de pandemia, principalmente tudo aquilo que normalmente damos como garantido.

Mudando para um assunto mais leve e mais quentinho, podemos usar este tempo livre para relembrarmo-nos daqueles que estão mais longe e que tanto amamos. Parece que de repente, apesar de estarmos longe, todos estamos mais perto. As videochamadas e conversas são mais regulares e duram mais tempo. Num espaço de um mês de quarentena falámos mais com alguns amigos do que em meses normais, onde a rotina toma conta dos nossos dias e parece nunca haver tempo para aquele café.

Se calhar está na altura de responder à antiga pergunta: “Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver?”. Gosto de pensar que um pouco de ambos e que a vida é uma balança, mas por vezes não temos tempo para olhar e ver se os pratos estão equilibrados.

Devemos retirar prazer do nosso trabalho se possível, mas nunca nos podemos esquecer das nossas paixões antes das 9h e depois das 18h. Parece uma frase que alguém extremamente privilegiado diria (o que o é em parte), mas quero relembrar que paixões podem ser simples e bastante puras: abraçar um amigo, fazer um jantar especial, ouvir uma música, tomar um banho de imersão, entre outros miniprazeres que nos enchem o coração por pequenos minutos, mas que muitas vezes desvalorizamos. Nunca foi tão essencial agarrarmo-nos a estes momentos e aproveitá-los.

A expressão “temos tempo” nunca foi tão real e sincera. Efetivamente temos mais tempo do que o comum para fazer as coisas que temos adiado. Já não existem horas desperdiçadas em transportes públicos e em almoços que nem temos imenso interesse em ir.

Não penso que esta quarentena deva ser uma competição de produtividade, porque às vezes as maiores conquistas não são calculáveis nem visíveis. Porém, se tiverem 30 minutos livres pensem no estado do mundo e nas falhas e conquistas da sociedade durante os últimos anos, pode ser que fiquemos todos inspirados e tentemos construir algo de bom depois disto tudo passar.

Depois destes 30 minutos, podem voltar para o Netflix. Também faz bem para desanuviar.

Texto de Beatriz Cunha

Ilustração de Nuno Amaral

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