Quantos zeros à direita tem a lib€rdad€?



Quando somos pequenos queremos conquistar o mundo. Queremos ser médicos para curar pessoas, queremos ser professores para ensinar os outros, queremos ser políticos para trocar o errado pelo certo. À medida que vamos crescendo, continuamos a querer mudar o mundo, mas percebemos que para isso temos de o comprar.


É que se queremos ser médicos, precisamos de pagar um curso e um quarto quase ao valor do ordenado mínimo. Se queremos ser professores, pagamos não só para estudar como para trabalhar a partir do momento em que anos de carreira são congelados. Podemos querer ser bombeiros, mas até aí estamos a pagar, não literalmente, pelos crimes que dão dinheiro a outros. Quanto à política, nem vamos entrar por aí…


Mas há um aspeto político em que vale a pena tocar: Megxit. A 8 de janeiro, o príncipe Harry e Meghan Markl anunciaram que vão renunciar aos títulos reais e podemos já prever a razão. A liberdade é a principal, tanto no que diz respeito à autonomia do casal, como à independência financeira. O objetivo é precisamente libertarem-se da pressão exercida pela imprensa — a mesma que matou a princesa Diana — que neste caso não há dinheiro que valha. O caso fica mal parado quando, uma vez no Canadá e sem mexer um dedo nas contas da família real, o ideal seria manter o mesmo estilo de vida e a mesma exigência no que diz respeito à segurança. A situação dos duques de Sussex (ou ex-duques a partir de 31 de março) deixa-nos num impasse. Ter liberdade, mas ter a vida condicionada economicamente em relação ao estilo de vida a que estavam habituados anteriormente ou não ter liberdade e ter todo o dinheiro do mundo? Para mim a resposta é óbvia, mas deixo a questão no ar.


Também ao ar foram lançados os cravos do 25 de abril, data que todos os anos celebramos e de que falamos sempre que o tema é liberdade, adoramos esse clichê, que ao longo do tempo foi-se resumindo a isso, porque em qualquer liberdade há condicionantes se continuarmos a olhar bem à nossa volta. Desde as coisas mais simples aos sonhos que estão por realizar, como aquele em que eu gostava de percorrer o mundo de mochila às costas, mas por mais livre que seja, se não tiver uma conta bancária minimamente recheada bem posso ficar pelo caminho. Por isso, a liberdade está dependente do dinheiro, mas a verdade é que o dinheiro que temos também depende da liberdade que nos é dada — um trocadilho que decifro com um simples exemplo. Se me derem liberdade de escolha, posso formar-me para subir na vida e ter mais dinheiro, ao passo que as mulheres sauditas só podem abrir uma conta bancária com o consentimento do marido ou tutor.


Desde sempre ouvimos avós e pais a dizer que “desde que haja saúde está tudo bem”, ou mesmo em brindes é saúde tudo o que desejamos. Mas não venha também o dinheiro para pagar os comprimidos para a diabetes ou uma consulta de especialidade, que vemos a saúde a caminhar para os mesmos zeros que a conta bancária. O mesmo se aplica à comida, que só temos liberdade de escolha se houver dinheiro.


Não precisamos de comer todos os dias pratos com estrelas Michelin — ainda que quiséssemos — para dizer que somos livres. Há quem quisesse apenas puder escolher entre um leque maior de alimentos, além de massa, atum e arroz com o que der e vier, mas sem dinheiro não tem essa liberdade de escolha. Neste caso há pelo menos uma forma de chegar a um equilíbrio: algumas pessoas que têm um poder económico superior a quem passa dificuldades predispõe-se a dar o que pode, de livre vontade.


Mas de tanto repetir a palavra liberdade, termino com um último tópico que tem afetado a economia: coronavírus. Ou então vamos ficar por aqui, porque se muito falamos do surto, ainda se sente na liberdade de se espalhar mais ainda e de sistemas corrompidos já estamos nós fartos.


Por isso, não há como fugir: o dinheiro compra tudo, até a liberdade.


Texto de Rafaela Simões

Ilustração de Joana Jorge

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