O equilibrismo da arte e da cultura

Sempre gostei de sonhar alto.

Sonhava estupidamente alto e, sem conseguir descobrir o porquê, nunca tive medo de cair e de ficar reduzida a pó ou a nada.

Todos os artistas sonham alto, uns vão a Marte enquanto outros se contentam a ir à Estratosfera. Não há qualquer mal nisso. Só precisamos de entender que a queda pode trazer consequências, boas e/ou más.

Nos tempos estranhos que correm, os sonhos de muitos artistas regem-se a algo mais simples que “voar”. Sair de casa e poder criar.

Obviamente que, para alguns, a rotina do costume continua igual, visto que uma larga quantidade já trabalhava a partir do seu lar.


Mesmo assim, para outra grande maioria, os rendimentos vêm da arte que fazem fora das ditas quatro paredes. Dou o meu exemplo, quase 90% do meu “salário” (entre aspas porque recibo verde), vem de trabalhos que tenho, obrigatoriamente, de fazer fora da minha casa e, ao mesmo tempo, estar em contacto com pessoas. Os ditos eventos; sessões fotográficas; produções audiovisuais; a lista continua.

[Estava a reler tudo o que já tinha escrito até agora e quero explicar o porquê das aspas em salário de recibo verde].

Na minha opinião, ser um recibo verde em Portugal é andar naquelas cordas bambas de arte circense. Vejo tantas vezes essas atuações na televisão e penso sempre se eles terão alguma cama elástica para lhes amparar numa eventual queda.

Não têm. Fazem equilibrismo por sua conta e risco. O ganha-pão deles baseia-se em coragem, confiança e, claro, equilibrismo.

Basicamente, ser um artista em Portugal, ou melhor, contribuir para a arte no nosso país, é andar nas alturas sem saber bem como vai ser a queda, visto que os apoios do Estado são quase nulos ou, para alguns, inexistentes.

Como é do conhecimento de todos, não estava no plano de ninguém este maldito surto de Covid-19. No entanto, veio, mais uma vez, provar que a cultura precisa de ser mais valorizada e nunca pode ser dada como um bem já adquirido.

Se alguém a ler este texto ainda não tiver lido umas quantas páginas de um livro, ouvido umas quantas músicas ou visto uns minutos de um filme, que atire a primeira pedra. Por esta altura, sem nada para nos entreter, já estaríamos todos maluquinhos com as tentativas falhadas a contar os grãos de arroz existentes num pacote.

Neste momento, muitos artistas estão sem trabalho e sobrevivem de poupanças ou das ajudas (poucas) que apareceram, tanto pela parte do Ministério da Cultura, como pela de outros órgãos privados (Fundação Gulbenkian, Anjos70, etc).

Acredito que iremos todos sobreviver a esta etapa meio confusa mas uma coisa é certa: a arte e a cultura têm de ser mais valorizadas. 

Texto de Joana César

Ilustração de Joana Jorge

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