Há tutoriais para tudo!



É impossível que nos passe ao lado ou que nos seja indiferente. Está intrínseca nas nossas vidas e associamo-la a momentos que nos marcam. É aquele denominador comum que, mesmo com vibrações e estilos diferentes, nos pode representar também como humanidade. Cria histórias para o futuro ou identifica-se com o passado. Não deve explicações. Tanto nos faz refletir como deixar de pensar, e isto ninguém explica. Inquieta-nos, no bom ou no mau sentido, mas inquieta-nos e talvez seja por tudo isto que encontra um lugar tão central no mundo, muitas vezes sem que nos apercebamos. A música. A música é tudo isto e tudo o que sobra dizer dela, enquanto acompanha e empurra a evolução do mundo.

E enquanto o mundo evolui e se acede a tudo mais rápido, a indústria da música não fica indiferente a esta realidade. Há espaço para hits fulminantes e fenómenos nas redes sociais, há espaço para trabalhar com o melhor produtor de Los Angeles através do teu quarto algures em Portugal e há até espaço para surgir uma carreira inteiramente a partir da internet. Claro, isto leva a que haja duas “alas” que nem sei bem como denominar... há os que se mantêm mais conservadores e não acreditam nesta “coisa de ser músico no Instagram” e os mais modernos que aceitam uma carreira nascida nas redes sociais. Uma coisa é certa: hoje em dia uma carreira que não passe, pelo menos, pelas redes sociais, acaba por sofrer repercussões na sua exposição. Esta realidade assusta tantos quanto atrai, num balanço entre aqueles que consideram que “não devia ser por aí” e os outros que vêem este facto como janela de oportunidade.

A música, como forma de arte, tem especificidades que a velha idade lhe traz e o tempo ecoa clássicos que nos fazem ver que a qualidade não é uma novidade trazida pela internet. Já se fazia boa música, disso ninguém duvida, mas o acesso era com certeza mais restrito. Afinal, se um músico for feito de público e se houver público nas redes sociais, isso faz de si músico? Eis uma pergunta que vale a pena ler duas vezes. Não é um fenómeno do Instagram que a indústria musical viva – também – de imagem. Ora, depende agora averiguar o que vem primeiro: é que a imagem será importante até ao fim dos nossos dias, mas a longo prazo não será, por si só, causa de uma longa carreira de sucesso. Pelo menos na música.

Mas voltemos ao acesso, ao imediatismo, à facilidade em explorar teoria e à prontidão com que se aplica a prática. A internet trouxe lugar à possibilidade de se estar à distância de uma boa pesquisa de se poder aprender técnicas que, até aqui, só poderiam ser aplicadas depois de ter formação. Democratizou-se o acesso à informação, que são palavras sonantes para dizer que hoje em dia há tutoriais para tudo! Pode-se aprender e pode-se aplicar: isso a internet trouxe e ninguém lhe tira. As oportunidades crescem neste sentido. Informação é poder e tanto há forma de investir com mais profundidade na aprendizagem, como de encontrar quem ensine.

A indústria da música já não é a mesma. Talvez mais industrializada, até. Talvez não. Há mais música e mais artistas, há mais oportunidades e mais desgostos. Não deixa de haver o “ser músico”, só há interpretações diferentes. Então, e afinal de contas, o que é preciso hoje para ser um músico? O que é preciso para se ser um artista? Esta liberdade de se criar e de se ser facilita as coisas? Este facilitar das coisas é benéfico? À falta de mais palavras minhas, cabe-te agora a ti pensar nestas respostas. É que aqui entre nós os dois: eu não sou o único - e não, isto não é uma referência aos Xutos - a ouvir música e a colocar estas grandes questões, ou sou? Espero que não, ia ser meio constrangedor.


Texto de Caetano Xavier

Ilustração de Nuno Amaral

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