Este rádio não para!



Este rádio não para! Quero mudá-lo e não posso, ou não consigo. Este rádio já toca há uns bons anos. Quatro, penso eu.

Às vezes falha, não consigo encontrar o erro. Se calhar, encontra-se no interior do rádio mas não consigo observar mais do que o exterior, apenas a sua parte superficial. Cada vez que o tento abrir e observar mais detalhadamente, ele encrava como se ficasse chateado comigo. Jamais quero eu que o meu rádio se chateie comigo! E, por isso, deixo-o tocar, interminavelmente, as músicas que deseja. Os seus gostos são bastante peculiares: Nos dias sombrios, toca jazz. Ah, e aquelas músicas recheadas de melancolia, que normalmente apresentam o som de um ukulele a ser tocado suavemente, como aquela música: Moon Song. Nos dias em que o sol irradiava cores vibrantes, lá lhe dava a vontade de tocar rock psicadélico. Acho que lhe enchia a “alma” como um vinho do Porto enche um copo numa noite de verão passada na casa de família. Pouco mexo no rádio, ele simplesmente fica no parapeito da minha janela. Raramente o vejo, mas oiço-o e sinto-o, mesmo estando distante. Vejo-me inconscientemente presa. Ele continua a tocar, e, quando a música me cansa, o rádio para. Apenas por um instante! Depois chega-me aos ouvidos um tema do Rubel: “Quando Bate Aquela Saudade”. Sinto saudades do sabor da liberdade. Saudades de poder escolher o que os meus ouvidos desejam ouvir. Saudades de ligar o rádio e poder controlá-lo. Passaram-se meses e nem Rubel, nem Beatles, me fazem esquecer os anos em que me assombraste. Não paravas, rádio. Libertei-me, e, agora que mudei de casa, já não te oiço. Até a música me soa diferente.


Texto de Carolina Diego

Ilustração de Joana Jorge

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