A liberdade começa em ti





Não consigo destralhar o peso que tenho aqui para cima. É pesado.

Penso que o mandei embora, mas volta a formar-se e bate-me com mais força, como ondas do mar que ganham maneiras e colidem constantemente com as rochas, desgastando-as rapidamente, deixando-as despidas de si.

O peso pode ficar por aqui. Ou pular a cerca.

Eu mando nele? Ou terá ele um livre-arbítrio?


Todas as minhas melhores experiências acontecem quando salto a pés juntos do círculo da zona de conforto, ou quando este peso dá esse passo.

Fundei a DØT Magazine no meu último ano de faculdade, com a necessidade de criar uma tese. Nunca fui boa com palavras, nunca sei o que quero dizer. Descrever, ou melhor, meter por escrito o que o meu cérebro gosta de expelir em todas as direções é-me bastante complicado. No entanto, tento criar algo com pés e cabeças.

Criar arte.

Conceber visualmente o que não consigo em sílabas.

Apanhei a ideia da DØT com as duas mãos, numa conversa profunda num dia de praia, a passar por uma crise de ansiedade. [Lembro-me como se fosse hoje. Quem sabe num futuro próximo falarei disto].

Uma das minhas grandes paixões é música [cliché], sendo que cresci e consumi muita da que é feita em Portugal. Começando com os míticos D’ZRT, passando pelo senhor Zeca Afonso, da minha mãe, acabando nos Xutos, do meu pai. Sabia que queria juntar isto a muitos temas [ainda] controversos do século XXI.

Agarrei este neurónio com unhas e dentes. Fi-lo presidente dos neurónios.

Eu e ele [e muitos amigos, familiares e tantos outros seres lindos incluídos] fizemos com que a primeira edição da DØT fosse possível. O projeto abraçou artistas e bandas emergentes, relacionando a respetiva música a temas como o vegetarianismo, feminismo, consumismo, aquecimento global, entre outros.

Viver e ser artista é uma conjunção de palavras que dá pano para mangas. Ninguém imagina a equipa por detrás disto. No entanto, esta é a liberdade que precisamos para a realização desta publicação que, para mim, é mais que uma revista, são muitos corações abertos em páginas impressas de maneira amiga do ambiente.


Os neurónios do meu cérebro aliam-se ao peso dos meus ombros. Por isso, decidi(mos) falar sobre algo que ainda incomoda muita gente: LIBERDADE.


Data-se o ano de 2020 e a utilização desta palavra é ainda alvo de tanto tabu e reboliço sem fundamento. Lutámos a finco para o 25 de Abril [de que nenhum dos colaboradores assistiu] para, por exemplo, termos alguém neste momento no Parlamento a ditar que não temos escolhas, que devemos julgar tudo e todos, e que, quem é “diferente” é mau.

Se te perguntas o que é “ser diferente”, já estás a meter a tua cabeça a rebobinar histórias da tua infância. Aquela sobre a tua avó, que estava sempre em casa, e o teu avô, que estava sempre a trabalhar ou aquela sobre a tua amiga que tinha bonecas e o teu amigo que tinha carrinhos de brincar. Aquela sobre o que devias [ou não] fazer porque é o normal e o tradicional.

É aqui que a liberdade entra de rompante. Chega do que é “normal”. O normal é tu te sentires bem, poderes andar na rua sem qualquer tipo de preocupação. É poderes gostar de quem tu quiseres. É teres os teus ideais e não seres julgado por isso. É continuar a lutar pelos muitos que já não estão cá mas que fizeram de tudo para que tu pudesses ter o País que tens hoje.

E lembra-te, só és livre quando não condicionas a liberdade do outro.


Que o amanhã seja um novo dia e que, as ondas, comecem, finalmente, a acalmar.



Texto de Joana César

Fotografias de Salomé Reis e Sofia Isabel

Montagem das fotografias de Carmo Souza Dias

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